Pré-escrito: isto é mais uma reflexão insólida pouco fundamentada; assim, quem não concordar pode me criticar mas sem fundamentalismos religiosos ou demasiado sentimentalismo, que por si só são irracionais.
Fiquei nessa tarde na mesa da cozinha tentando ler meu "O Capital", resumido, para a prova de economia dessa semana ouvindo por minutos a pipoca que meu pai estourava no fogão. Como se não bastasse apenas o ploc-ploc do milho batendo na lateral da panela, tive também que ouvir seu ritual: segundo meu pai, para uma boa pipoca tem que se bater com uma colher na tampa da panela enquanto se canta "maria pipoca, rebenta sororoca". Sem esse ritual a pipoca não rende, podendo não estourar ou até mesmo queimar. Ouvia também os gritos dos meus irmãos na sala assistindo o futebol.
Depois de uma panelada farta, o velho sentou na mesma mesa que eu estava e fixava o olhar para uma das portas de vidro laterais da cozinha, bem atrás de mim, observando a chuva que começava a cair. Percebendo-o pensativo e eu não conseguindo mais me concentrar no livro, perguntei qualquer coisa a ele:
- Você leu "O capital" na faculdade?
- Ah, não; não podia - respondeu com cara de temor... Pra quem não sabe, meu pai concluiu algumas faculdades na década de 1970, todas da área de ciências humanas, uma delas inclusive foi de ciências sociais. E continuei o papo perguntando então o que se podia ler na época, e respondeu que podia ler Weber, Caio Prado Jr., Celso Furtado. Dizia que era tempos muito ruins para se pensar a sociedade, a história, a política...
Disse também que a militância e a resistência dele e de seus colegas era muito pouca, quase inexistente, afirmando que, particularmente, tinha bastante medo da ditadura e perder as aulas que já tinha conseguido pegar (ele sempre deu aulas de geografia e história para ensino fundamental, que na época tinha outra designação). Mas disse que teve alguns professores "convidados" a deixar o país.
Após esse curto papo, olhei para aquele papel com idéias de Marx bem a minha frente e aí não consegui me concentrar mesmo: fiquei me perguntando o que aconteceu com o país (e com o mundo) que hoje me deixam ler isso - pois há quase quarenta anos esse mesmo texto era proibido até sob pena de morte!
Lembrei de algumas aulas do professor Odair. Dizia ele que tudo que podemos ler e fazer hoje em dia é porque não oferece risco algum a atual ordem. E penso: será que se criarmos alguma nova teoria, se criarmos algo que realmente possa subverter a ordem social, será que presenciaríamos uma nova ditadura militar? Naquele período, reformas de base e comunismo propriamente dito estavam em evidência na política nacional e internacional; o mundo vivia em plena guerra fria. E se fosse acontecer alguma revolução comunista no país o momento era aquele, como aconteceu em outras partes do planteta.
E eu sei que não me sinto muito bem lendo Marx. O cara pensou uma bela teoria para salvar o mundo da exploração capitalista e hoje nos ajuda muito a compreender nossa existência moderna, porém acho que é só! E pelo simples fato de que podemos ler suas teorias terei que concordar com o professor Odair: a prática das idéias marximianas parecem insuficientes para transformar nosso mundo.
Mas e aí? O que precisamos criar para se recomeçar a abalar esse estado de coisas? Sei que não podemos viver mais assim, somos todos os dias transformado um pouco mais em coisa, como escreveu Drummond. Talvez, por eu pensar que uma revolução completa ultrapassa os interesses materiais de classe, acho que uma revolução fica mais difícil, ou talvez o contrário, podendo ser muito mais simples: às vezes uma revolução se inicia nas simples relações cotidianas, transformando um simples fato num evento libertador - talvez fazendo de uma comilança de pipoca um observar de mundo e de nossa vida (e da chuva...), diferentemente daquele proposto como modelo pelos dominantes; além do mais, boicotamos o futebol da Globo, algo que não diz respeito à minha existência, nem à do meu pai, nem de ninguém que eu conheça.
Por hoje, só vejo que posso me preocupar com o indíviduo que levanta cedo para trabalhar, mas que quando está em casa somente sabe assistir sua tv, ainda ligado, sem se dar conta, nas formas de poder que continuam reproduzindo sua condição subalterna até mesmo longe do trabalho diário.
Se alguém aqui que me lê já viu algo na TV comercial capaz de fazer uma classe oprimida, um grupo marginalizado, o simples homem comum se reconhecer enquanto classe, grupo ou indivíduo me escreva, me diga.
Mas nem tudo está perdido, já dizia outras aulas do professor Odair, meu referencial para pensar em revoluções. Existem ainda várias coisas por aí que incomodam os dominantes, mesmo eles insistindo em transformá-las em mercadorias ou simplesmente tentando dar a elas um fim. Mas elas são muito pequenas, miúdas, quase passam despercebidas - e poucos conseguem perceber, garantindo, de certa maneira, esse período sem ditaduras explícitas que vivemos.