quinta-feira, 19 de novembro de 2009

nesse momento menor

nesse momento menor cheguei em casa, cansado. me coloquei pra escrever nessa mesa fechada no quarto, enquanto lá fora cai uma chuva cinza. ouço no instante o “quatro”, que me ajuda a rabiscar esta tarde, jamais, uma das mais alegres desde quando penso saber o que é alegria (ou tristeza). esse mar de lágrimas por uma morena de um dos barbudos neste disco me faz pensar que não sou a última pessoa de algum lugar feliz. já as paisagens abstratas do outro pode me garantir um pouco mais de satisfação quando sair desse quarto: posso imaginar que o vento e os pássaros podem me levar pra alguma outra condição... bem melhor que essa daqui.

*

olho para as pontas dos dedos da minha mão esquerda e percebo que elas ressecam. vejo várias tonalidades de rosa em meio aos rachados de cor predominantemente branca e beje. pra tentar colorir algo de mais estranho que este dia, em meio à primavera, tiro essa caneta do papel e começo a contornar os rachados do dedo anelar.
ficou apenas um borrão azul.

*

(acho que nunca escrevi a palavra borrão).

*

e daí que banda acabou, o disco também, e com ele essa tarde. seus últimos versos são esperançosos para quem ainda aguarda (ansiosamente) seu retorno - ao menos eu acho, sei lá, preciso achar que algo nessa brincadeira de vida poderá ser legal.

*

com um grande lamento,
me parece
que mais uma vez a vida vai continuar,

com ou sem
rabiscos. paisagens
abstratas. dedos
rachados. mar
de lágrimas. borrões...

ainda,
neste momento menor.


12/10/2009

domingo, 25 de outubro de 2009

Ser eu!

Meu meio social, me desculpe, mas não é possível ser tudo o que você gostaria que eu fosse. Não posso pegar (usando seu pejorativo vocabulário) mulher do jeito que você quer. Não posso usar todas as drogas que você me oferece. Não posso te dar a atenção que, as vezes, você merece. Não posso ser o mais forte e o mais viril como você sugere. Não posso sempre ser claro como você me exige - não posso, muitas vezes, nem sequer me expressar... Também não posso ser todas as vezes ser o campeão. Não posso sempre chegar antes. Não posso ser sempre o mais simpático.

Não posso sempre te dar o que você deseja! Todas as vezes que tento ser o que me pede, meu corpo não fica bem: me estranho. Saiba que tenho inúmeras limitações, algo que talvez você nunca entenderá - e sei que não se esforçará para me entender.

Assim, se for possível, para não ficar mais desconfortável nossa relação, gostaria que você procurasse não mais me encher o saco. Tente me deixar em paz, por favor.

*

Me lembrei de um dos eus do Fernando Pessoa:

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

terça-feira, 20 de outubro de 2009

autofalante

apenas
quero
ficar
calado
.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fila

Não sei que acontece mas chego pra fila do R.U. por volta das onze e quinze, sento no chão, fico observando - num ato quase etnográfico - as pessoas passando por mim com suas diversas maneira de se vestir e se reconhecer no mundo, indo pro final da fila. Todavia, quando eu chego dentro do estabelecimento com o estômago murcho e pregado na vertebra de fome, quem eu encontro lá dentro com a bandeija quase vazia? Algumas das mesmas pessoas que passaram por mim que, eu acreditava, foram para o final da fila! Às vezes eles só foram dar uma mijadinha...

É muito interessante o papo do fura fila: ele chega devagar, aperta sua mão ou te dá um beijo no rosto, e quando vê ele já tá lá dentro! Quem ficou para trás que se dane, afinal, é o jeitinho brasileiro! Mas estranho é que nem todos os outros brasileiros, usuários do R.U., tem esse "jeitinho" (e respeita os colegas que chegou primeiro e vai para o final da fila). Tem também aqueles que chegam na frente de um colega e diz: "obrigado por guardar o meu lugar!". Ai pode né (e estou sendo irônico), ele não furou fila: apenas teve que chegar mais tarde, como qualquer outro atrasado que vai para o final da fila, mas esse pediu para um companheiro ir indo na frente...

Como diz o filósofo brasileiro Alexsandro Arbarotti (comédia isso, mas é sério), "cada um rouba o que está ao seu alcance". E considero que o fura fila rouba o tempo de quem chegou primeiro.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Às vezes parece

Por que será que tenho (ou temos) essa escassez de vontade escrever? Pior que sempre há coisas para se tratar, sempre. Basta olhar as coisas ao nosso redor e escrever sobre o que vê. Por exemplo: nesse momento vejo na minha frente, depois desse computador que estou, um carinha com um fone no ouvido ouvindo uma música ensurdecedora que de onde estou dá para ouvi-lá bem. E ainda, para o que considero belo em música, ele tem muito mal gosto pois ouve um pop americano. Assim eu poderia aqui então, falar sobre música, industria cultural ou simplesmente sobre pessoas que não tem bom senso, não por ouvir coisa enlatada americana, mas por fazer todos desta sala ouvir o que está escutando.

Um outro rapaz, mas do meu lado direito, está fazendo um trabalho sobre respiração humana; certamente, algo muito mais eficaz e prático do que as teorias do século XIX que prometem salvar o mundo de "todo mal amém" que eu estudo quase todos os dias...

Mas não vou escrever agora sobre essas coisas. Sem muita inspiração, prefiro escrever sobre minha última semana.

Foi interessantíssimo (ao melhor superlativo Ph.D. em sociologia do cinema e literatura) viajar para Maringá naquelas circunstâncias e condições e muito diferente (esta foi a melhor palavra que encontrei) poder ouvir da grande maioria dos meus amigos "maringaenses" um "eu não tenho coragem de furar a orelha", e, principalmente, de quase todas as pessoas próximas que eu relato a aventura, ouvir outro "eu não tenho coragem de ir pra pista e pedir carona".

E eu que sempre me achei um medroso, com coragem e vontade apenas para fazer o fundamental para minha sobrevivência (como pedir água e comida) pude ouvir essas frases de pessoas que muito admiro por diversas razões, uma delas por serem corajosas.

Acho que (pois ainda não estou totalmente certo disso), pelo menos nos próximos dias, as coisas complicadas desse mundo, ou melhor, do meu mundo, poderão me parecer mais simples. Se não me parecerem, acho que já sei o caminho.


sábado, 12 de setembro de 2009

Uma lei geral da saudade?

Vir aqui nesse laboratório de informática aos sábados me faz lembrar o primeiro ano de faculdade. Não faz tanto tempo que ele ficou no "tempo biológico", mas no "tempo psicosocial" parece que já faz anos. Vinha aqui para ver emails e atualizar, se tivesse vontade, esse blog; algo que hoje faço da sala do PET. Aquela mesma sala me tirou da solidão de estar sempre aqui, fragmentado: na sala do PET, quem a frequenta muito não se sente só pois sempre tem gente entrando ou simplesmente passando por lá que te pergunta algo além do "tudo bem?", e o diálogo se segue.

Aqui no LABI os diálogos, na maioria das vezes se resumem em um "oi", eu respondo "oi", a pessoa pergunta "tudo bem?", eu respondo o "não tão bem quanto você", ela dá uma risadinha e boa, cada um volta para o seu computador, já colocando um fone no ouvido; mas esse breve papo, é claro, existe somente se a pessoa sentar num computador vizinho ao que se está. O interessante é que esta sala pode estar lotada de seres humanos mas é um lugar que esses humanos não se reunem para relacionar com outros seres humanos (talvez somente seres virtuais), assim, os diálogos são quase inexistentes quando se entra aqui. Diferentemente da sala do PET que mesmo com os computadores, acaba sendo um espaço para a sociabilidade ao menos dos petianos (e do Jésus que sempre entra lá sem bater).

Sentar aqui no LABI aos sábados me lembra aquelas manhãs acordadas com um certo mal humor depois de uma indigesta sonzera sertaneja dos meus vizinhos na sexta a noite. Também, lembro que saindo daqui eu ia ao Nativo comprar algum ingrediente que faltava para as macarronadas ao molho branco com steak que fazia com o Daniel e o Léo, nosso agregado - e era tão bom o nosso macarrão (eu achava pelo menos...) que esse ano nem tive vontade de fazer isso sem a presença deles; eu até esqueci como se fazia aquele molho... E lembro que mais a noite, um número considerável de pessoas da minha sala se juntava na minha casa para fazer outras coisas pra comer, ou então íamos pra casa da Lu - saudades da Lu e de seu vício em chá mate.

Hoje o tempo parece ser outro bem diferente, que gosto muito também porém não acho justo fazer hierarquias e dizer qual é melhor pois ambos me abastecem (ou abasteceram) de coisas boas. Mas essas lembranças que tenho daquelas tardes de sábado aqui me remete a uma felicidade que o presente pode até me dar, entretanto, parece que jamais poderei agora senti-la - e isso parece ser uma lei geral da saudade: o passado "ah, era bom!", e o presente "a gente vai vivendo..." como diz minha vó. Acho que somente num outro tempo, quando eu não mais poderei sentrar no PET em tardes de sábado, escreverei outro texto dessa natureza lembrando o quanto foi bom (e feliz) entrar naquela sala e viver aquilo que vivia no tempo que eu tinha a chave da porta daquela sala.

domingo, 6 de setembro de 2009

Revolta com sabor de pipoca

Pré-escrito: isto é mais uma reflexão insólida pouco fundamentada; assim, quem não concordar pode me criticar mas sem fundamentalismos religiosos ou demasiado sentimentalismo, que por si só são irracionais.

Fiquei nessa tarde na mesa da cozinha tentando ler meu "O Capital", resumido, para a prova de economia dessa semana ouvindo por minutos a pipoca que meu pai estourava no fogão. Como se não bastasse apenas o ploc-ploc do milho batendo na lateral da panela, tive também que ouvir seu ritual: segundo meu pai, para uma boa pipoca tem que se bater com uma colher na tampa da panela enquanto se canta "maria pipoca, rebenta sororoca". Sem esse ritual a pipoca não rende, podendo não estourar ou até mesmo queimar. Ouvia também os gritos dos meus irmãos na sala assistindo o futebol.

Depois de uma panelada farta, o velho sentou na mesma mesa que eu estava e fixava o olhar para uma das portas de vidro laterais da cozinha, bem atrás de mim, observando a chuva que começava a cair. Percebendo-o pensativo e eu não conseguindo mais me concentrar no livro, perguntei qualquer coisa a ele:

- Você leu "O capital" na faculdade?
- Ah, não; não podia - respondeu com cara de temor... Pra quem não sabe, meu pai concluiu algumas faculdades na década de 1970, todas da área de ciências humanas, uma delas inclusive foi de ciências sociais. E continuei o papo perguntando então o que se podia ler na época, e respondeu que podia ler Weber, Caio Prado Jr., Celso Furtado. Dizia que era tempos muito ruins para se pensar a sociedade, a história, a política...

Disse também que a militância e a resistência dele e de seus colegas era muito pouca, quase inexistente, afirmando que, particularmente, tinha bastante medo da ditadura e perder as aulas que já tinha conseguido pegar (ele sempre deu aulas de geografia e história para ensino fundamental, que na época tinha outra designação). Mas disse que teve alguns professores "convidados" a deixar o país.

Após esse curto papo, olhei para aquele papel com idéias de Marx bem a minha frente e aí não consegui me concentrar mesmo: fiquei me perguntando o que aconteceu com o país (e com o mundo) que hoje me deixam ler isso - pois há quase quarenta anos esse mesmo texto era proibido até sob pena de morte!

Lembrei de algumas aulas do professor Odair. Dizia ele que tudo que podemos ler e fazer hoje em dia é porque não oferece risco algum a atual ordem. E penso: será que se criarmos alguma nova teoria, se criarmos algo que realmente possa subverter a ordem social, será que presenciaríamos uma nova ditadura militar? Naquele período, reformas de base e comunismo propriamente dito estavam em evidência na política nacional e internacional; o mundo vivia em plena guerra fria. E se fosse acontecer alguma revolução comunista no país o momento era aquele, como aconteceu em outras partes do planteta.

E eu sei que não me sinto muito bem lendo Marx. O cara pensou uma bela teoria para salvar o mundo da exploração capitalista e hoje nos ajuda muito a compreender nossa existência moderna, porém acho que é só! E pelo simples fato de que podemos ler suas teorias terei que concordar com o professor Odair: a prática das idéias marximianas parecem insuficientes para transformar nosso mundo.

Mas e aí? O que precisamos criar para se recomeçar a abalar esse estado de coisas? Sei que não podemos viver mais assim, somos todos os dias transformado um pouco mais em coisa, como escreveu Drummond. Talvez, por eu pensar que uma revolução completa ultrapassa os interesses materiais de classe, acho que uma revolução fica mais difícil, ou talvez o contrário, podendo ser muito mais simples: às vezes uma revolução se inicia nas simples relações cotidianas, transformando um simples fato num evento libertador - talvez fazendo de uma comilança de pipoca um observar de mundo e de nossa vida (e da chuva...), diferentemente daquele proposto como modelo pelos dominantes; além do mais, boicotamos o futebol da Globo, algo que não diz respeito à minha existência, nem à do meu pai, nem de ninguém que eu conheça.

Por hoje, só vejo que posso me preocupar com o indíviduo que levanta cedo para trabalhar, mas que quando está em casa somente sabe assistir sua tv, ainda ligado, sem se dar conta, nas formas de poder que continuam reproduzindo sua condição subalterna até mesmo longe do trabalho diário.

Se alguém aqui que me lê já viu algo na TV comercial capaz de fazer uma classe oprimida, um grupo marginalizado, o simples homem comum se reconhecer enquanto classe, grupo ou indivíduo me escreva, me diga.

Mas nem tudo está perdido, já dizia outras aulas do professor Odair, meu referencial para pensar em revoluções. Existem ainda várias coisas por aí que incomodam os dominantes, mesmo eles insistindo em transformá-las em mercadorias ou simplesmente tentando dar a elas um fim. Mas elas são muito pequenas, miúdas, quase passam despercebidas - e poucos conseguem perceber, garantindo, de certa maneira, esse período sem ditaduras explícitas que vivemos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Tá doendo

Está difícil assistir uma aula inteira. Prefiro sair da sala e digitar isso que escrevi ontem a noite já deitado na cama.

Deitei - como nosso corpo é fraco; minha cabeça parece que vai afundar nesse traveiro. Por que nossas vontades vão além do limite do corpo? Poderia haver uma maior harmonia...

Esse domingo foi esquisito, uma grande ressaca me dominou. Somente no começo da noite consegui tomar o melhor remédio (que considero para essas ocasiões): caminhar para qualquer lugar que tenha uma sorveteria. Num surto de lucidez (e pão-durismo), fui até a Sampaio Vidal em alguma dessas que um bom picolé não passa de centavos.

Na volta para casa, ao abrir a porta do meu bloco encontrei dona Maria, moradora de um dos apartamentos que necessariamente tenho que passar para entrar no meu. Trocamos alguma idéia na sua porta até que soltou que tinha acabado de fazer um bolo de fubá. Ela, simpática, me convidou para comer. Eu, com nó no estômago e dor de cabeça hesitei, mas no fim das contas não poderia recusar: eu não poderia ficar pior, além do mais era comida de mãe, não iria me fazer mal. Entrei no seu apartamento, e me perguntou se queria sentar, daí um abraço, não pode me dar muita liberdade: já peguei a garrafa de café e até perguntei se não tinha um leite, mas desnatado por que não estava muito bem do estômago... Na verdade, claro que não perguntei, mas parece que leu meus pensamentos e já me serviu um leite desnatado para acompanhar o café e o bolo de fubá em sua mesa de jantar.

Ficamos lá conversando sobre várias coisas, até mesmo sobre futebol e política - ela, senhora de quase 80 anos (mas parece que tem 60), gosta de assistir muitos telejornais. E claro, também, os assuntos sempre caem na família, e ela, uma senhora que mora sozinha, sem marido, que teve um filho mas que faleceu, todas as vezes que entrei em seu apartamento nunca deixou de me mostrar algum retrato de algum familiar seu. E ela me perguntava se eu não sentia falta da minha família.

- Ah dona Maria, limpando minha boca de café com leite, sinto sim mas já estou acostumado. Além do mais sempre minha irmã me visita, ou eu visito ela em Assis.
Nessa altura do papo eu já dizia quem era meus irmãos e o que eles fazem e continuei:
- Quando ela vier para cá novamente eu tocarei aqui e apresentarei ela a senhora, a senhora vai gostar dela!
- Ah, traz sim, respondeu a dona Maria. Gosto muito de conversar com estudantes, me faz lembrar muito meu filho: ele era muito estudioso, só estudava e eu gosto de conversar com gente jovem, além de distrair e não me sentir tão só...

Nesse breve instante minhas dores pareciam que dissolveram no ar, deixei minha cabeça cair sob a palma da minha mão esquerda repousada na mesa, e enchi meus olhos de água: era mais uma solidão que me doia. Mas ela encara a vida e seus pesares com muita naturalidade, é católica com muita fé em santa Filomena, entretanto, eu logo fiz alguma piadinha nada a ver com o assunto para eu não ser o chorão da noite. E não chorei, logo as dores da ressaca voltaram.

PS.: A senhora nem se chama Maria mas não encontro motivos para revelar seu nome verdadeiro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Algumas considerações sobre o trabalho de campo do final de semana:

Sem-terra não é vagabundo. Eles precisam ter alguma fonte de renda na cidade para conseguir se alimentar no acampamento. Além do mais, dá um puta "trabalho" morar debaixo de uma lona sob as incertezas climáticas de um país tropical - eu senti na pele o sol escaldante do dia e o que é passar frio sem ter casa e colchão para dormir na noite.

Já no assentamento, morada de quem um dia não teve terra, por vezes segurei para não chorar. Enquanto nessa faculdade muitos lutam pela distante revolução, aqueles assentados já a fizeram! Simplesmente conseguiram desapropriar uma fazenda de até então seu único dono repartindo à várias outras mãos... É bonito.

O frio, a chuva, o barro, a coxa de frango que não gosto, a noite mal dormida no chão depois de ver a barraca "inundada", valeram a pena.

Todo ser vivo tem direito a terra para se sobreviver, todavia, essa lei só não vale para o bicho homem. Aí é triste.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Metamorfose

Há pouco mais de três anos eu, um estudante do primeiro ano de geografia, estava sentado em alguma cadeira de um auditório num museu da universidade estadual de Maringá ouvindo um professor da federal de Alagoas falar sobre conceitos e pressupostos básicos da teoria de Karl Marx. O professor era o Sérgio Lessa. Eu, que o ouvia, tinha 19 anos e era um sujeito que nunca estudara essas teorias mas estava curioso, curioso por novos conhecimentos. Eu o ouvia com um cobiçado boné nike na cabeça.

Sérgio Lessa, naquela ocasião, num primeiro momento de suas palavras, dissera coisas básicas marximianas (mais-valia, exploração, capital...) mas aquilo, novo para mim, foi me tocando com tanta intensidade que enquanto ele falava até tirei meu boné da cabeça deixando à vista o pouco que sobrava do meu topete... Os dias após essas reflexões, para mim, nunca mais foram os mesmos, vivendo um período de grande reflexão: vivi uma grande crise de valores, culminando ao longo desse tempo em vários rompimentos - um deles foi largar a faculdade de geografia e vir para Marília fazer ciências sociais. E ontem, pude vê-lo e ouvi-lo novamente aqui em Marília depois desses poucos anos - muito embora me pareça que isso aconteceu há muitos anos, dado a mudança quase radical que fiz acontecer em minha vida.

Durante as palavras de ontem e antes de ontem, ouviu um ainda menino de 22 anos, com um gorro na cabeça para protejer sua careca raspada do gelado ar condicionando. Enquanto o professor falava, eu pirava no que aconteceu comigo nesse curto espaço de tempo que separa o ano de 2006, ano que estava em Maringá, do ano 2009, que estou aqui do jeito que vocês meus amigos "marilienses" me conhecem.

Simplesmente o que eu pensava, não penso mais. O que eu queria, agora não quero mais. O que eu acreditava, não acredito mais. Desde aquelas reflexões eu busquei o novo, e ando do lado oposto de que andava! E como isso me fortaleceu... Parece que novas coisas surgiram, nasceram nesse mundo; posso dizer que me reinventei. Isso pode ser um pouco triste quando penso no que eu deixei de ser se não me decidasse com tanta integridade à aqueles pensamentos que por sua vez me levaram a outros e tantos outros. Por outro lado penso na sensação de liberdade e criatividade que comecei a sentir depois daquela crise.

Se todo jovem é rebelde e precisa romper com algo foi ali então que me tornei jovem. E o que anima a viver essa vida é que ainda tenho pouca idade e estarei por aí sentado em vários museus, anfiteatros, platéias de teatro, cinema, shows e mesas de bar com a mesma paixão por novos conhecimentos e idéias, ávido por outras revoluções! Se eu chegar aos 100 anos, quero ainda sentar nesses lugares com a mesma disposição dos meus 19! Mas sei que isso muitas vezes é difícil...

Acho que o ruim e (mais) triste é se entristecer e se perder nas velhas visões e convicções.

Até lembrei agora da "Metamorfose Ambulante" do Raul...