sábado, 11 de fevereiro de 2012

tenho 25 anos


belchior cantou: "tenho 25 anos de sonho e de sangue, e de américa do sul". indo nesta linha, agora eu tenho vinte e cinco anos de corpo e de vontade de transformar as velhas instituições políticas de verdade. "desesperadamente eu grito em português!", rs...

não se trata de tomar violentamente o poder central amanhã, evidentemente.

existem pequenas formas de poder em todos os lugares! assim, todo gesto de resistência, por menor que seja, pode estremecer as grandes redes de poderes que "controlam" nossas vidas.

são esses pequenos gestos de resistência que me disponho a encontrar e praticar.


fotografia por meu amigo gabriel!


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A ridícula lei da sacolinha.

Desde o dia 25 de janeiro entrou em vigor uma das lei mais medíocres que considero ter conhecimento desde quando me entendo por gente: a proibição do uso de sacolas plásticas nos supermercados do estado de São Paulo.

O discurso a favor da lei é que se reduzirão os danos ao meio ambiente, pois há muito gasto de energia para produzir sacos plásticos e seu material não é nada reciclável. Assim, vende-se a ideia de que retirá-los dos caixas, cada cidadão estará fazendo, mesmo que obrigado, a sua parte para salvar o planeta. Nada mais falacioso que isso!

Um saco plástico que uso todos os dias não irá salvar meio ambiente algum. Se toda a população paulista, brasileira, planetária, universal se apropriar de uma sacolinha por dia, não irá nos salvar da desgraça ambiental anunciada (se é que ela um dia virá). No meu caso, particularmente, e com certeza também é o de mais uma boa parte da população, não reduzirei o consumo de plástico algum, pois a sacolinha que todo dia eu pegava no mercado eu a reaproveitava para os cestos de lixo da cozinha e banheiro de minha casa. Agora, eu que nunca comprei sacos plásticos de lixo (aqueles pretos ou azuis), terei que comprá-los para depositar meu lixo diário produzido nesses cômodos.

A lei, desta forma, pode fomentar um consumo pelo outro - isso para não falar do dinheiro que agora gastaremos para adquirir sacos plásticos de lixo. Mas mais do que isso, ela quer induzir o cidadão e a cidadã comum, que rotineiramente vai aos supermercados a acreditar que a medida está salvando o planeta Terra. Não está.

Se quisermos reduzir os danos ambientais, que se façam leis proibindo grandes indústrias como Coca-cola e Elma Chips, só para citar, deixarem de produzir suas latinhas e embalagens. Um lanchinho da tarde, com um refrigerante e um salgadinho chips, pode proporcionar mais desgraças que uma mera sacolinha reaproveitável. Indo mais além, se quisermos mesmo salvar o planeta, vamos mudar radicalmente nossos hábitos diários, consumir menos produtos diretamente ligado à industria pesada das grandes corporações multinacionais e induzir a falência de empresas que realmente destroem o planeta. Ademais, enquanto isso no senado, circula o ruralista novo Código Florestal, ainda distante da preservação da biodiversidade brasileira.

Eu, especificamente, estudo um processo de "psiquiatrização da vida" que vem ocorrendo nas sociedades ocidentais, quando hoje, quase todo comportamento desviante é considerado patologia mental. Assim, não pensamos isso, pois a questão está demasiadamente naturalizada em nós, mas cada medicamento para insônia, por exemplo, que tomamos, incentivamos uma gigantesca bioeconomia de escala mundial, com seus grandes laboratórios poluidores - e toda sua maquinaria industrial, construída em detrimento de minérios e outros elementos naturais - a produzir no ritmo do capital pílulas para "aliviar" os mais novos transtornos e sintomas da alma; inquietações que são frutos do mesmo ritmo frenético capitalista que enlouquece e enfraquece o indivíduo; mesmo ritmo industrial que sucumbe os recursos naturais e o bioma planetário.

Dito, enquanto não existir mudanças radicais nos padrões de consumo (do supermercado à farmácia, do shopping ao posto de gasolina), enquanto não nos propusermos, por uma outra ética, a resistir à ética consumista e compulsiva do tempo presente, seremos obrigados a tomar conhecimento de mais dessas leis idiotas, que não servirão para nada, apenas para perpetuar a degradação ambiental e a ordem política das coisas desta sociedade paulista, brasileira, ocidental.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Mon pauvre français, ma volonte de savoir...

Mon première écrit en français: le résumé de la ma monographie! Elle s'appele "De la folie au le souffrance: une genealogie du discours psychiatrique".

La traduction est "meia boca", comme sa dit en Brésil, mais envoyez quand même à la bibliothèque de ma faculté. Le objectif de publier ici est quelque un français ou française recherche en Google un de ces mot et me corriger.

*

RÉSUMÉ

Cette étude vise à retracer une généalogie du discours psychiatrique. Il s'appuie sur les travaux du philosophe français Michel Foucault et ses interlocuteurs, principalement sur ses projets archéologiques et généalogiques. Au début du texte, cherche à récupérer le coûteux travail de cet auteur, comme l'expérience tragique de la folie, naissance du hôpital et l'institutionnalisation du savoir-pouvoir psychiatrique comme projet biopolitique des états modernes. Dans le second moment, je présente quelques caractéristiques de la prison et la violence commettant au insensée au intérieur de la maison des fous et, plus tard, sa désintégration le long de la réforme psychiatrique et la résistance des mouvements d'asile dans la seconde moitié du XX siècle. Dans le troisième chapitre, je cherche à cartographier les caractéristiques de contrôle actuel de la maladie mentale, dans l'asile après: à partir de matériaux d'articles de presse nationaux et internationaux et, de les papiers neuro et biopsie, essayer de montrer la psychopharmacologie comme une possible “chemise chimique” en temps que d'une part, il ya peut-être pas le confinement de l'ancien hôpital, l'autre reste le contrôle de la conduite et la discipline des corps. Dans un occidente néo-libéral, le discours psychiatriques gagne de force dans la vie sociale quotidienne, nuit à l'individu en recherche d'une autonomie constitution de soi et la compréhension de leur souffrance, qui m'a amené à penser que trouve dans le secteur pharmaceutique et "psi" réponses aux les difficultés quotidiennes.

Mots-clés: maladie mentale, biopolitique, société de contrôle, psychiatrie, Michel Foucault.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ensaio sobre a autonomia de mim mesmo

Diante outra vez de uma overdose de sentimentos e pensamentos. Escrevo a palavra sentimento antes de pensamento não em vão: na filosofia ocidental (apenas para me referir a algo), sentir para pensar é uma arte praticada desde grécia antiga, repudiada apenas pelo racionalista (e não à toa universalista) Descartes. E como somos pós-cartesianos, sentir se afastou do pensar; sentir se transformou em erro - afinal, para existir hoje é necessário pensar ("penso, logo existo").

Mas não quero seguir esta tradição filosófica.

A distinção entre os meus sentimentos e pensamentos eu consigo fazer apenas quando algo me salta à percepção, ou melhor, quando vejo algo bom, ouço algo ruim... Todavia, num rápido espaço de tempo, meu sentir e pensar se entrelaçam num emaranhado pulsante, latejante, ávido por ganhar vida exterior, e aquele sentimento e pensamento, à flor da pele - talvez como um bebê humano no seu nono mês de gestação - implora para sair do corpo, esta pobre constituição molecular, incapaz de suportar tamanha ferocidade para além da fisiologia: as ideias! É neste exato momento que não ouso mais como distinguir sentimento/pensamento, dado a hibridez que uma ideia pode representar, quando externalizada.

Foi assim que busquei escrever, no semestre passado, minha monografia. Um incomodo, sentido e pensado, precisou ganhar alguma forma de vida. Fora do meu corpo, aquele incomodo ganhou duas maneiras de existir: primeiro em palavras (a monografia), segundo, buscando desesperadamente praticar resistências ao que me fez senti-lo e pensá-lo (na recusa radical de qualquer prática científica - no caso, as disciplinas "psi"- disposta a induzir sofrimentos).

Tenho uma pergunta imensamente angustiante, muito íntima, dentro de mim que me move talvez desde os meus 13 anos: por que é que tenho que sofrer com isso? A indagação parece simples, mas não é.

Desde meus 18 anos, antes mesmo de ingressar na faculdade de geografia, transferi a responsabilidade deste tormento para o meio exterior a mim, isto é, algo do lado de fora que força a algo que não consigo fazer, e isso me causa sofrimentos - não a toa que nesta época sofri de síndrome do pânico.

Aos 21 e o ingresso num curso de ciências sociais, esse tal meio exterior ganhou o nome e a forma de "sociedade". E nestes 24 anos e 11 meses, diante de um gradual porém não menos híbrido encontro com o devastador pensamento de um certo professor já falecido, o "meio exterior", "sociedade" ou o "isso que faz sofrer" se liga a outra palavra: discurso, nome que hoje, acredito eu ser mais capaz de dar continuidade às minhas reflexões sobre o que me paralisa e proporciona sofrimento, bem como o que me move e proporciona satisfação e alegria.

Sinto e penso (será sempre junto, continuadamente: quando deixar de ser eu juro que abandono essa vida acadêmica) que um conjunto de discursos estão pulverizados e se pulverizam ao nosso redor com o intuito não apenas de financiar e manter o barganha de alguém - os ricos - mas induzir sofrimentos, fraquezas emocionais, humilhações de minorias, de infinitas minorias dentro de cada indivíduo, a troco de um pretenso bem estar de uma pretensa maioria.

Com o atestado de morte do homem enquanto objeto de saber - apenas marcado na história do pensamento ocidental por Foucault, o tal professor falecido mencionado acima, rs... - o sofrimento que essa situação me causa, faz-me parecer mero discurso construído por alguém, algum dia, em determinado lugar, e seu único objetivo é me fazer sofrer. Pode parecer simples, porém a naturalização destes discursos em nossas vidas diárias é tremenda, e simplesmente desconstruí-los já é tarefa que por si só traz muita carga de dor à miseráveis e incompletas almas, como é a de nós todos e todas.

São discursos como a psiquiatria, a neurociência, a farmacologia, bem como a sexualidade, a economia, a pedagogia, a psicologia e etc, criados com o intuito de causar sofrimento, e não curar ou ajudar, aliviar as agruras diárias de alguém, e muito menos ensinar a viver melhor! Não existe fórmula para se viver, nem fórmula para aliviar uma dor, como deseja a psicofarmacologia. Doença mental, loucura, heterossexualidade, homossexualidade (e ato sexual em si mesmo), noções de raça, casta, status, pobreza e riqueza: tudo não passa de discursos, pretensamente científicos com data de nascimento no tempo desta sociedade!

É desta maneira que, filosoficamente, eu posso dizer de boca cheia: EU NÃO PRECISO DE VOCÊ! Não preciso do psiquiatra, do psicólogo, do pedagogo, da polícia, da miséria do patrão, da família nuclear, do marido ou da esposa, da namorada ou do namorado, ficante ou amante (discorde quem quiser); eu não preciso do Papa!!! Ninguém irá me salvar de nada, pois em momento algum deveríamos precisar de alguma salvação aqui nesta vida terrestre, construída e organizada nas relações diárias cotidianas. Ninguém me trará felicidades pré-concebidas, fórmulas mágicas para a vida! Em outras palavras, eu não preciso de um professor para me ensinar, de um remédio ou de um médico para medir meu bem-estar, de um pai e uma mãe casados para me educar, de uma polícia para me repreender, de um sexo para me satisfazer, de um romance ideal para ser feliz, de dinheiro de alguém para ser alguém!

Historicamente, esses discursos só encontram sustentação dentro de determinadas culturas! Só precisamos de alguma pretensa "salvação" dentro desta sociedade, erguida em um modelo disciplinar, que se dispõe, através de seus inúmeros discursos e palavras de ordem, a causar as mais variadas tipologias de sofrimentos, humilhações, desigualdades, violências. Porém, é uma sociedade que existe desta forma porque a construímos assim!

É neste modo que fica o desafio, para as próximas entradas - que na verdade já são quase saídas - de minha quase completa calvície: sentir e pensar dentro de minha própria experiência uma autônoma prática de mim mesmo, depois de recusar qualquer um destes discursos hegemônicos, inventados para nos fazer sofrer.

A continuidade de meus estudos terá que ir neste sentido: no sentido de mim mesmo e dos outros, constituindo-me enquanto um corpo-sujeito ético, mas não fechado em si mesmo, e sim capaz de politicamente incentivar outras e novas formas possíveis de verdades, estimulando resistências por todos os cantos, em todas as partes, onde houver alguém em situação de risco ou inferioridade, em estado de sofrimento. Estimular, também, não apenas resistências coletivas mas individuais, tentando oferecer a cada um, a cada uma, condições autônomas de vida. Acredito que garimpando um outro olhar sobre aquele determinado momento de uma determinada vida, aquilo que até então o faz chorar, a faz sofrer, poderá dar lugar a uma nova constituição política de verdades! Poderá nascer novas possibilidades para novas relações sociais! Poderá nascer novas formas de vida, novos encontros, novas compreensões sobre a natureza e o que é humano! Poderá surgir novos corpos, afetos, desejos... novos sentidos para nós mesmos!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

sobre o conceito das coisas


a vida
a humanidade
o homem universal
a ciência
a verdade
a cura


[o remédio para
o sentimento]

[a explicação para
o sofrimento]

o contrato
o direito
a norma
a lei

a dor
a tristeza
a felicidade
a sexualidade
o sentido da vida

que tremendo discurso falacioso, inventado ao longo da história...





*

referências:
- foucault, m. a ordem do discurso. são paulo: loyola, 2010;
- experimentos da moderna neuropsiquiatria.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

carinho e teoria.



"Vagamente eu imaginava que o encontro com Foucault te trouxe uma maneira, uma brecha para os olhos que tanto querem brilhar...no fundo, é isso que também me aproxima dessas ciências sociais.
Sim, o tema será interessante por dialogar com um momento da vida também... essa 'psiquiatrização' da vida tem me incomodado profundamente, essa maneira de escapar rápido à dor, essa fuga constante...não me cabem.
Infelizmente, ainda prefiro o sorriso sincero e o choro sentido".
M.C.


"Pedrinho, vale muito a pena ser apaixonada e teimosa ao mesmo tempo. Análise (...) "apaixonada em excesso" com bons resultados!".
C.F.

***

imensurável minha alegria ao saber que um fazer-pensar pode inspirar paixões e outros tempos possíveis para a vida cotidiana... vejo estas mensagens acima, trocadas por e-mail, compondo reflexos positivos de um íntimo projeto pessoal, no qual a vida entra na teoria - e não o contrário -, abrindo brechas para irromper a mesmificação do conhecimento, e o tédio, a dor, o natural e outras antigas formas políticas da verdade tão cristalizadas na gente...

na prática viva, vejo saltar aos meus sentidos a possibilidade de aproximar cada vez mais palavras aparentemente tão distantes, como "carinho" e "teoria".





quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

eu não entro em férias.

nessa época do ano recomeçam as perguntas: "já está de férias?". e já há algumas férias eu respondo que não posso entrar de férias. não consigo... é impossível!

eu não trabalho num laboratório que depois do expediente tiro o jaleco e o que deixo lá não me pertence fora dali.

trabalho com subjetividade e pessoas. envolvo-me com elas. como se não bastasse, ainda pesquiso loucura e sofrimentos. tenho plena convicção: só entrarei de férias quando as pessoas pararem de sentir, emocionar-se, alegrar-se, entristecer-se...

e não me chame de cientista! cientista és tu e tua fria ciência que pensas em fazer. a "ciência" social que proponho está intimamente vinculada com a vida, em seu detalhe. quando eu não sentir mais os sinais de vitalidade nos meus trabalhos (seu olhar, sua respiração, seu tato, seus batimentos compassado com o meu), procurarei outra coisa para fazer...

domingo, 13 de novembro de 2011

tão bonito





por que você me olhava assim, tão bonito
e agora não pode mais me olhar?

como você podia andar assim, tão sozinho?
até vontade me deu de te cuidar...

eu, que sempre quis ser a mais forte
já não podia ter mais sorte
te fiz sair do teu lugar

eu, que precisei da tua mão
acabei cantando a tua canção
mas agora me ponho a lamentar






fotografia do meu amigo, gabriel.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Nesta década do século XXI, após mais de meio século do início da progressiva “desospitalização” da doença mental, a tendência hegemônica é de focalizar, através de métodos da neuropsiquiatria e psicobiologia, processos neuronais que originam transtornos psiquiátricos reafirmando buscar no corpo bioquímico do indivíduo – e não em seu meio – as causas para seus transtornos e sofrimentos psíquicos.
O fechamento dos hospitais psiquiátricos e a emergência de serviços substitutivos de saúde mental acompanha uma lenta sobremedicalização da população...

***

não consigo continuar a escrever. alguém me ajude!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

grafia





escrevo sobre neurolépticos, eletrochoque, anti depressivos, doenças e sofrimento psíquico cheio de alegria! escrevo para denunciar uma das muitas relações de poder que mutilam a vida. escrevo para retirar o terror da realidade das coisas. escrevo, também, para quando parar de escrever sair reinventado...

escrevo para sobreviver.





terça-feira, 8 de novembro de 2011

fucô ficô

há um ano sofria uma crise de apendicite: a gota d'água fora uma sequência de exercícios físicos numa academia de marília. nestes mesmos dias do ano passado começava a xii jornada de ciências sociais da faculdade de filosofia e ciências daquela mesma cidade.

eu começava a escutar moby e lia as primeiras páginas sobre michel foucault, autor que me influenciaria diretamente nos meus sentidos por vir - era difícil ainda compreender a angústia e a alegria de seus escritos radicais. nesta mesma época do ano eu me apaixonava por uma mocinha.

***

hoje não tenho mais a apêndice. não mais faço sequênciais de exercícios físicos por falta de tempo e preguiça. não moro mais naquela cidade. não estudo naquela faculdade. não escuto moby. não há mais a mocinha. nem há mais aquela paixão.

mas a vontade de viver - e resistir às agruras da vida -, que também está lá nos livros de foucault, se renova a cada dia dentro de mim.




quarta-feira, 2 de novembro de 2011

grande diferença





esta alegria
me permite
enxergar
coisas assim,
tão pequeninas

aquela tristeza
a impede enxergar
coisas assim,
como esta alegria






fotografia do meu grande amigo, gabriel.



domingo, 16 de outubro de 2011

no tempo que eu bem entender





há dias que acordo apaixonada
simplesmente por ser, assim.

dias que levanto na hora da vontade,
pois na noite anterior não havia preocupações
com o haveria de amanhã.

e assim eu caminho
no tempo que bem entender.







pé e fotografia de mariana poncio, minha amiga. obrigado.

sábado, 15 de outubro de 2011

Poder e Disciplina em Michel Foucault

O texto que segue é de minha autoria, parte metodológica de minhas reflexões sobre doença mental, sofrimento psíquico e biopolítica. Por enquanto, isto servirá mais para estudantes que almejam uma vaga na graduação (vulgo vestibulandos), estudantes que almejam uma vaga na pós-graduação, pretendentes a uma vaga em algum concurso público ou curiosos e curiosas. Mais adiante, vou publicando outras coisas que eu considerar conveniente. Acho que conhecimento é público, principalmente quando dinheiro público me paga para ler, refletir e escrever. Certamente, existem muitos outros leitores de Foucault, profissionais que lidam com seus textos há anos, mas para aqueles sujeitos que se encaixam nas classificações mencionadas acima, isto pode lhes ajudar! Serve também para estudantes do mesmo tema criticar meu texto e apontar possíveis melhorias. E tem outra: publicar minhas reflexões ou resenhas de reflexões de terceiros (como esta que se segue) fazem parte de um projeto pessoal que tenho; um íntimo projeto que vai ganhando forma a cada dia, a cada novo sofrimento sentido... A cada novo sofrimento.


Não vejo tanta necessidade, mas como sei que tem de tudo na internet - até mesmo o que eu não sei - é melhor deixar a citação correta disto.


***


MEINBERG, P. Poder e Disciplina em Michel Foucault. In: Da loucura ao sofrimento tardio: uma genealogia da institucionalização psiquiátrica. Monografia de Bacharelado em Ciências Sociais. FFC/UNESP. No prelo.


Ano 1970. Michel Foucault adentra no quadro de docentes do renomado Collège de France. Desde ano até o fim de sua vida, precocemente em 1984, leciona a cátedra História dos Sistemas de Pensamento e, como qualquer outro célebre professor desta instituição, todos os anos (com exceção de 1977, quando gozara de um ano sabático) Foucault apresentou cursos originais, discussões e resultados de suas mais recentes pesquisas. O momento de seu ingresso no Collège marca um deslocamento do eixo central de suas pesquisas: grosso modo, traçar uma genealogia dos poderes que organizam discursos verdadeiros, práticas e instituições da moderna sociedade ocidental.


Sem, todavia, aviltar o olhar metodológico que percorreu suas pesquisas anteriores, Foucault se lança às raízes das práticas sociais que constituem o sujeito moderno enquanto indivíduo sujeitado a discursos e práticas de poderes. Sua hipótese para uma “genealogia dos poderes” é a de que aquilo normalmente denominado como “verdade” constitui nada mais que efeito de uma vontade histórica de verdade, observada na articulação entre estratégias de poder e tecnologias de saber.


Nesta etapa de sua produção acadêmica, Foucault faz saltar em suas pesquisas uma rede de micropoderes que edificação as atuais sociedades do ocidente e suas práticas de individuação. Percebe poderes centrífugos, locais, familiares, com uma variedade de conflitos dotados de articulações horizontais, conjuntamente com uma articulação vertical, uma integração institucional desses poderes múltiplos. Poderes que impõem condutas, estimulam práticas, produzem e segregam saberes.


Afinal, que tipo de poder, ou melhor, poderes, Foucault busca sua ascendência? Na sua obra, o que está em jogo é determinar quais são as diferentes táticas e estratégias de poder que se exercem em diferentes níveis da sociedade.


Nesta investigação, metodologicamente lança mão da questão do poder centrada em um Estado e uma autoridade política. Para Foucault existem diversos níveis e tipos de poder espalhados pelas sociedades ocidentais que não encontram necessariamente uma única explicação para suas origens, como pensa a teoria política clássica[1]. Poder, em Foucault, não pertence a alguém tampouco a um grupo; poder é disperso, constitui redes, faz intermediações e sempre existe onde há defasagens, diferenças de potencial, dissimetrias (FOUCAULT, 2006, p. 7). Doravante, todo poder é físico e seu ponto de aplicação, em última instância é o corpo. Esta noção de poder foi genuinamente descrita numa obra fundamental em sua bio e bibliografia: Vigiar e Punir (2010), publicada em 1975.


Foucault propõe que em nossa sociedade existe algo como um poder disciplinar, um modo terminal e capilar do poder, uma intermediação a qual os poderes, em suas generalidades, vêm tocar e agir sobre corpos, considerar seus gestos, comportamentos, hábitos e palavras.


Afirma que este poder disciplinar não nasceu repentinamente e tampouco sempre existiu: as atuais técnicas e métodos de disciplinamento moderno foram (e estão incessantemente sendo) construídos ao longo do tempo e espaço social atingindo no século XIX a grande forma geral do contato entre poder político e corpo individual, isto é, a grande forma geral do poder disciplinador.


Na obra foucaultiana, o poder disciplinar busca criar corpos obedientes e úteis:


“O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra em uma maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe’”. (FOUCAULT, 2010, p. 133).


Nasce uma “anatomia política”, igualmente também, insurge uma “mecânica do poder”, que define como se dominam e moldam corpos. Assim, a disciplina fabrica “corpos dóceis”, submissos e exercitados para um determinado estilo de vida em sociedade.

A descoberta do corpo como objeto de poder acontece durante a época clássica, momento histórico no qual tipos específicos de poder, disciplinadores, investem sobre corpos individuais a partir de um conjunto de práticas domésticas e cotidianas, como também a partir de regulamentos fabris, militares, escolares, hospitalares, a fim de controlar ou corrigir operações do corpo: neste período, o corpo precisa se tornar útil; inteligível.

Foucault adverte, porém, que não é a primeira vez na história ocidental que o corpo é objeto de investimentos forçados. Para ele, e isso não apenas na cultura ocidental como em qualquer outra sociedade, o corpo está encarcerado no interior de poderes muito cingidos, que lhe impõe restrições, proibições ou obrigações, como havia nos antigos conventos, exércitos e nas oficinas. A novidade nos esquemas de docilidade a partir do século XVIII reside, em primeiro lugar, na escala do controle: Foucault não percebe que se trata de cuidar do corpo enquanto massa, como uma unidade indissociável, “mas trabalha-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica – movimentos, gestos, atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo” (Ibidem, p. 132-3). Em segundo lugar, o objeto do controle passa ser a economia e a eficácia dos movimentos; a coação passa a se fazer mais sobre as forças que sobre os sinais. Em terceiro lugar, enfim, a modalidade do controle, que passa a provocar uma “coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos” (Ibidem, p. 133). Foucault chama por “disciplinas” esses métodos que asseguram o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição contínua de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade.

Segundo suas pesquisas, as disciplinas se tornam no decorrer dos séculos XVII e XVIII expressões gerais de dominação, diferentemente dos processos de subserviência e submissão do corpo da antiguidade clássica ou da Idade Média, como a escravidão (que literalmente se apropriava do corpo), a vassalidade (que se investia mais sobre o produto do trabalho do que nas operações do corpo) e o ascestimo e das “disciplinas” tipo monástico (que realiza mais renúncias ao corpo do que o aumento de suas utilidades).

Estas antigas maneiras de submissão, todavia, não estão totalmente eliminadas no modelo de sociedade disciplinar que Foucault propõe. Existe o trabalho forçado, a apropriação capitalista do trabalho - hoje em forma de lucro, atividade vital para ordem do capital - e diversas formas de ascetismo religioso. O que Foucault chama atenção é para uma característica peculiar do poder disciplinador de corpos que, em seu conjunto de “disciplinas”, é isento de maiores gastos de força física contra o corpo, porém, volta-se constante e exclusivamente para o aumento de suas forças. O poder disciplinar produz corpos, modifica-os quando há necessidade: o corpo é “dócil”:

“A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma ‘aptidão’, uma ‘capacidade’ que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada” (Ibidem, p. 133-4).

Técnicas de disciplinamento sempre minuciosas, no mais das vezes íntimas, definem uma maneira de investimento político e detalhado do corpo. Pequenas formas de poder que garantem, metodologicamente, uma “microfísica” do poder: tecnologias de poder por vezes minúsculos, de violência sutil, de ação silenciosa sobre corpos e subjetividades[2]. Para Foucault – e aqui ressalto seu brilhantismo - “a disciplina é uma anatomia política do detalhe” (Ibidem, p. 134).


A disciplina tenta reger a multiplicidade de corpos individuais na cultura industrial moderna, “homens-corpos” que precisam sempre estar ocupados, treinados - e sob constante vigília; ocasionalmente, o indivíduo que transgredir as formas de poder institucionalizadas, ou seja, o “homem-corpo” que não se disciplinar, poderá ser punido.


O poder disciplinar, para Foucault, implica um procedimento de controle contínuo e, o sujeito está constantemente sob o olhar de alguém ou na situação de ser observado[3]. Em Foucault, o que assegura o funcionamento permanente da disciplina é o exercício progressivo, detalhando ao longo do tempo o aperfeiçoamento de uma disciplina. Desde o primeiro instante da vida, o poder disciplinar intervém incessantemente sobre o “homem-corpo”, suas vontades, sua alma, fazendo-se consoante o modo de individuação em sociedade.

Nas sociedades disciplinares, não há mais a necessidade de um agressor a lei ter seu corpo supliciado e pagar pelo crime que cometeu sob um extenso ritual de tortura como era no século XVII, por exemplo: na Era Clássica, surge a polícia e a prisão celular, novos instrumentos de poder, novas práticas para governar e vigiar condutas. O surgimento da polícia e o fim dos suplícios não significam que um Estado Moderno punirá menos; pelo contrário, pois racionalizando o controle a partir de uma nova “economia” de forças (e tempo), sem os longos e cruéis rituais contra a carne do corpo, abre a possibilidade para se punir mais e buscar corrigir o indivíduo transgressor. O nascimento das prisões e demais instituições austeras, garante a intenção de corrigir, educar, tratar, curar, normatizar um desviante social.

A prisão nasce como um mecanismo de gestão de uma população. É uma prática mais silenciosa da disciplina: o sofrimento é menos físico e mais psicológico; é um sofrimento do corpo à alma; é uma disciplina que não visa o corpo do condenado, mas se precisa desse corpo para punir, para fazê-lo sofrer e “curá-lo” e reintegrá-lo à sociedade: assim, a punição vai além do corpo. Nas sociedades disciplinares, há uma racional gestão do comportamento individual hostil, como um controle de todo desvio à norma de uma população.

Bibliografia:

FOUCAULT, M. O pode psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FOUCAULT, M. Segurança, Território e População. São Paulo, Martins Fontes: 2008.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. São Paulo: Vozes, 2010.



[1] Não desconsidera, entretanto, o poder também enquanto uma relação de forças econômica vinculado à política. Pensa que existem várias outras maneiras de se impor poder espalhadas ao longo do espaço social. Foucault questiona em suas pesquisas se o poder tem sempre e essencialmente como razão de ser e finalidade servir a um projeto econômico-político hegemônico.

[2] Foucault faz uma observação minuciosa do detalhe, e ao mesmo tempo recomenda um enfoque político dessas pequenas coisas, no controle e utilização dos homens da Era Clássica em diante. A partir desta época, formas de poder carregam em seu âmago todo um conjunto de técnicas, todo um conjunto de processos e de saber, de descrições, de receitas e dados. É desses esmiuçamentos do poder que, sem dúvida, para Foucault, nasceu o homem do humanismo moderno. Ao cientista social ou historiador, cabe um exercício genealógico, isto é, buscar a ascendência de cada forma de poder estudada, para entender – e por sua vez desconstruir - as atuais formas de repressão e submissão presentes em nossa sociedade.

[3] Explora esta ideia no capítulo “Panóptico” (Ibidem).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011






que coisa mais gostosa
de se "vê".

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

se tudo coubesse






19:23 na torre:
muitos carros
passam na rua
da direita, ou-
tros tantos na
esquerda, onde
uma senhora
acena para o ô-
nibus no ponto
de frente da ca-
sa de jardim;
aquela parada,
daquele tama-
nho veículo, pa-
rece atrapalhar
o então corri-
queiro fluxo da-
quela região.

a cidade parece que está maior;
parece não caber mais em mim.





domingo, 9 de outubro de 2011

a triste extinção de uma flor do mediterrâneo






tenho um forte sentimento que estou sendo seguido,
e que estou sendo vigiado por alguém
que não desejo...

pare de me procurar
por favor.


quem quiser me encontrar, verdadeira e organicamente, sabe como fazer isto! se você, meu leitor ou leitora, percebeu que eu desapareci do seu raio de visão, desapareci de qualquer um dos teus cinco sentidos; e se eu, pessoalmente, nestes últimos 2 meses, não te disse onde nem como me encontrar (física ou virtualmente), me esqueça!

agora falando sério, como um post anterior.

e eu não apago este blog - afinal, se quero total privacidade - pois gosto muito desse processo de refletir, escrever o que reflito e dividir alguma outra reflexão com outras pessoas... mas você que se sentiu atingido ou atingida com este recado, é porque não quero dividir nada com você.

você procura vida, eu sei. você buscou algum tipo de vitalidade em mim. porém, afirmo: aqui não há nada mais disso para ti e tua frágil existência. e como sua concepção de "vida" é fraca - pois, no limiar da tua dor, você apenas consegue reclamar do teu sofrimento ao invés de buscar fugas e alternativas dentro de você mesmo(a) - sei que você prolonga tua angústia e só sabe se contentar com o pouco que encontra aqui de mim. essa tua pobre busca por aqui demonstra tua fragilidade e sofrer.

transforma-te para algum dia, de alguma maneira, valer a pena me procurar de novo.

fuja de ti.

domingo, 2 de outubro de 2011

me abraça







chuviscos
a molhar
um tanto de vento
pra secar

- tudo isso é muito bom e
a se fazer sorrir...












sábado, 10 de setembro de 2011

.confundir

"Agora falando sério, eu queria não cantar a cantiga bonita que se acredita que o mal espanta - dou um chute no lirismo, um pega no cachorro e um tiro no sabiá; dou um fora no violino, faço a mala e corro pra não ver a banda passar. Agora falando sério, eu queria não mentir. Não queria enganar, driblar, iludir tanto desencanto. E você que está me ouvindo [lendo], quer saber o que está havendo com as flores do meu quintal? O amor-perfeito traindo, a sempre-viva morrendo e a rosa cheirando mal! Agora falando sério: preferia não falar nada que distraísse o sono difícil como acalanto...; eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar - e chamar polícia e médico e o síndico do meu tédio pedindo pra eu cantar! Agora falando sério: eu queria não cantar! Falando sério!!! Agora falando sério!! Eu queria não falar... Falando sério..."


domingo, 4 de setembro de 2011

fico por aqui mesmo.

as tentativas de sair são frustantes - saio e me entristeço.
então fico por aqui mesmo.

abro um livro.
ele diz:

"tem-se o hábito de ver na fecundidade de um autor, na multiplicidade dos comentários, no desenvolvimento de uma disciplina, como que recursos infinitos para a criação dos discursos. pode ser, mas não deixam de ser princípios de coerção; e é provável que não se possa explicar seu papel positivo e multiplicador, se não se levar em consideração sua função restritiva e coercitiva". [está lá, n'a ordem do discurso].

a constituição dos discursos e sujeitos em foucault me faz lembrar (e muita outras pessoas também lembram...) de durkheim.

vocês me inquietam.

por uma questão de vida, a última fase de sua obra - do pensador francês mais tardio desses mencionados acima - nos inspiram a uma nova ética, extrapolando-se para as linhas do fora.

fora?

pelo menos esse "fora" é encontrado em nós mesmos. e daí chegamos ao cuidado de si; podemos encarar a nossa própria vida como "obra de arte". prática grega da antiguidade.

difícil?

obscuro parece que é apenas o sofrer... mas como eu não posso concordar com isso, posso apenas escrever assim.

pelo lado do fora, fico por aqui dentro mesmo. cuidando de mim.